Um tantinho de Irará no bolso: lembranças da Lavagem de 2003
- Karla Carneiro
- 3 de nov. de 2025
- 7 min de leitura
Atualizado: 2 de dez. de 2025
O Entre Fatos e Cortejos nasceu do desejo de preservar aquilo que, muitas vezes, não está escrito: as memórias, as vozes e os olhares de quem vive e sente as festas de Irará. Foi com esse espírito que recebi de Roberto Martins, comunicador e filho de Irará, um texto que ele escreveu há mais de vinte anos, em 2003.
“É uma espécie de diário de bordo”, ele me contou. Um registro sincero, cheio de observações sobre a Lavagem de Irará, sobre tradições que mudam com o tempo e sobre a forma como a cidade trata, ou esquece, seu próprio potencial cultural e turístico.
Embora nunca tenha sido publicado em site, blog ou jornal, o texto não era completamente inédito: na época, Roberto o compartilhou em grupos de e-mail, onde muitas pessoas tiveram acesso. Agora, ele ganha nova vida aqui, no Entre Fatos e Cortejos. Mais do que uma memória pessoal, é um documento afetivo sobre o que éramos, o que somos e o que ainda podemos ser enquanto comunidade.
Diário de Bordo.
As aventuras de quatro turistas e os
caminhos dos festejos populares de Irará
Sexta feira, 31 de janeiro de 2003, sete horas e vinte minutos. Assustei-me,
precisava levantar-me, já estava atrasado para as minhas obrigações, apresentar um
seminário cujo conteúdo houvera sido lido rapidamente na noite anterior. Tal
preocupação, no entanto, não mudava o norte do meu pensamento, era a última
sexta-feira de janeiro, e como em outras derradeiras, era dia de Lavagem em Irará.
Olho pela janela, tempo nublado, chuva na capital, em segundos as sinapses me
conduzem ao interior. “Será que lá chove?”, “a alvorada já deve ter acontecido”, “o sol
brilha de maneira especial lá hoje”.
Hoje, sexta-feira, 07 de fevereiro de 2003, uma semana já se passou, portanto é
momento de reflexão. Como foi a festa mais esperada pelos iraraenses ? Esta lavagem
foi diferente para mim, pela primeira vez não estava em Irará durante o período anterior
à mesma, sendo assim, estive distante de todo o blá blá blá, que se formou neste
tempo, e este fato pode proporcionar expectativas positivas para mim. Efeito Bartlet,
diriam os teóricos da comunicação, “quanto mais tempo se passa do acontecido, há
uma forte tendência para que sejam reforçadas as lembranças positivas”. Outro
diferencial foi a oportunidade de poder conduzir a Irará quatro pessoas, as quais nunca
haviam pisado o chão da terra nascida da luz do sol.
Encontramos o cortejo na praça Tancredo Neves e percebo que a Lavagem de Irará já
começa a surpreender. A máquina de retrato começa a trabalhar, mas enquanto a
mim, quais as minhas impressões ? Olho pro cortejo e a imagem realmente deslumbra,
o colorido das baianas, potes, carroças e povo, é realmente muito bonito. Logo percebo
o estandarte saudando a Virgem da Purificação, e me parece ser um modelo novo
flamejando frente ao cortejo. Olho ao fundo e percebo que o Bumba Boi está dentro da
corda . “Ih! Começaram a inventar”, este foi meu pensamento.
Chego à praça da Purificação no embalo da Charanga e reencontro os
companheiros de quem, distraído, havia me separado (isso sempre acontece nas
lavagens). A Charanga “desliga” e o carro pipa não “toca”, enquanto isso o Samba de
Roda e o Boi dão conta do recado, “Ah! Agora eu entendo, e aprovo”, e porque não
aprovaria, afinal de contas é cultura iraraense e não os Filhos de Gandhi como no ano
anterior. A água começa, não me molho. Charanga toca, não acompanho. Conversa na
praça, reencontro velhos amigos, percebemos que a Charanga já deve estar longe e
precisamos segui-la.
O caminho é pela rua de baixo, ou Campos Martins como quiser, ao chegar na
esquina, dúvidas. O cortejo foi para cidade nova, em direção ao São Judas, ou dobrou?
Ficamos sabendo que virou a esquina (pelo Cestão) e subiu pela Pedro de Lima, acho
estranho o Cortejo não ter passado pela Cidade Nova. Apresento ao pessoal o terreno
onde foi localizada a casa de Tom Zé, não entendem o porquê da demolição e ainda o
nome daqueles candidatos no muro. Coisas de Irará tento explicar-lhes.
Eles começam a entender que havia muito para se saber de Irará. Na Matriz,
água de carro pipa, e Daniel que havia estranhado o comportamento da gente de Irará,
“esse povo nunca viu água não” - não se controla e vai para debaixo d’água também.
Encharcados, ele e eu seguimos a Charanga até o final (claro que passamos na casa
de Eloi na Quixabeira ), quando encontramos os outros colegas que já queriam voltar
para casa para se refazer da folia.
No descanso, pensamentos e reflexões, Vânia faz uso de um caderno para nele
escrever um poema, no qual tenta sintetizar o que ficou na cabeça depois de tudo o
que viram, “a vontade de levar um tantinho de Irará no bolso”. Proponho sairmos, eles
topam e para eles tudo parece estar bom, pena que não para mim. Olho a cidade e não
vejo a festa de fevereiro, vejo as pessoas e não encontro alegria em suas faces.
Converso com um amigo, ele me confessa que não houve Alvorada, penso comigo:
“Mais um chute na tradição”. Agora só me resta voltar para casa, pois o outro dia é
sábado, e sábado é dia de feira.
Quando meus colegas acordam já percebem um movimento maior na rua e logo
ao sair na feira já comentam a grandeza da mesma. Não sei se bancando o pessimista
ou sendo bastante real, digo-lhes que já fora maior e já não movimenta mais a
economia da região como outrora. Querem comer uma comida típica de Irará, um deles
me pergunta por meninico de carneiro, respondo que podemos encontrar e começamos
a procurar o referido prato típico do interior baiano. Após algumas informações
desencontradas, a fome vence a paciência e eles acabam comendo aquilo que podem
encontrar em qualquer restaurante da capital.
Após a breve refeição continuamos o passeio, apresento para eles Zé Aristeu de
Araújo, e lhes digo ser aquele o escritor do livro, “Tom Zé o Cantador de Irará”.
Atencioso interrompendo o seu ofício, Sr. Zé Aristeu conta para eles algumas de suas
aventuras de literato, e mostra alguns de seus livros. Nesse momento o “coisas de
Irará” volta a aparecer, agora para justificar o fato daquele homem precisar se virar
como barbeiro. O tour pela feira continua, vamos passando pela cerâmica de Irará, e é
inevitável levar um modelo daqueles para casa, foi o que um deles acabou fazendo.
Tento conduzi-los à Casa do Artesão e Casa da Cultura, para conhecer um pouco de
nossa arte, dou de cara na porta do antigo sobrado dos Nogueiras, fechado, numa data
turística.
Com bases de pensamento socialista Zé Falcón foi a Irará, também com o
pensamento de encontrar Aristeu Nogueira. O desejo foi realizado no começo da noite
de sábado, numa rápida passagem pela casa de Dr. Aristeu, Zé pode ouvir a voz da
história viva, através das lembranças do velho militante do antigo PCB , contando
alguns fatos de sua vida política, como o conhecimento dele junto ao Cavaleiro da
Esperança, Luiz Carlos Prestes, e demonstrando que está acompanhando os passos
do governo Lula, apesar dos seus 88 anos de vida e saúde debilitada. É inacreditável,
Irará tem um personagem da história do Brasil, e não demonstra dar muita importância
a este fato. Ao sair da casa de Dr. Aristeu, Zé me agradecia a oportunidade, não
sabendo ele que outra visita interessante ainda estava por vir.
Depois da visita ao velho comunista fomos à casa de um outro Nogueira. Artista
plástico de talento indiscutível, Zé Nogueira, mas conhecido como Zé de Aristide era o
nosso próximo anfitrião. A galera simplesmente se encantou com a casa de Zé.
Admiraram quadros, casas de passarinho, garrafas personalizadas, licores, as estórias
de Zé... Vânia, já não queria levar só um tantinho de Irará, mas se pudesse, levaria a
banca da casa do artista também. Guego, esposa de Zé, responsável pela confecção
dos licores, dentre outras artes, foi bastante hospitaleira, e o pessoal parecia não
querer mais sair daquela “casa estilo” como disse Daniel.
Estas visitas tiveram como consequência a nossa ausência do Capita Folia,
evento que acabou tornando-se o ápice da festa de Irará. Esta falta me causou uma
certa inconveniência com alguns amigos, pareciam achar que eu os tivesse trocado
pelos novos colegas, porém, compreenderam a minha necessidade de estar
acompanhando meus convidados, afinal (acreditem! ) eles quase se perderam em Irará
quando deixei dois deles na rua sozinhos, achando o caminho de volta quando
perguntaram a populares onde ficava a casa de Zé do Rádio.
Após as visitas resolvemos sair na noite Iraraense. Novamente não consigo
lembrar que é festa de fevereiro. Na rua não há nada, nem bloco, nem banda, nem
barracas de bebidas... Aponto em direção ao coreto, e digo-lhes que naquela praça
em outras épocas estaria lotado de barracas e gente movimentando pela cidade, ou
então esse movimento estaria na praça da Purificação, contudo, aquele não parecia ser
um dia de festa. Não fosse o parque que diferente do ano passado desta vez foi para
Irará, talvez a rua resumisse-se aos fiéis que foram à novena naquela noite, e ao final
da mesma a cidade se transformaria em um cemitério vivo. Há quem possa alegar que
em outros tempos, na noite de sábado costumava acontecer uma festa paga (como
houve naquele sábado) em benefício da festa religiosa, só que naquele período,
aconteciam outros movimentos, como as barracas citadas à cima e também no
domingo a cidade não parava, inclusive com apresentação do Bloco das Nigrinhas no
domingo pela manhã, o que não ocorreu este ano.
Já na manhã de domingo chegava a hora de meus convidados irem embora.
Todos agradeciam a oportunidade, diziam terem gostado de Irará e prometiam voltar.
Eu sentia muito não poder ter mostrado para eles o Irará da forma que eu desejava, se
eles gostaram do jeito que foi, imaginem se Irará estivesse com uma estrutura melhor
para receber visitantes? No momento em que eles estão saindo começa uma chuva
repentina, parece que a natureza do lugar chora a partida daqueles que já eram
“iraraenses de coração”. Penso que a nostalgia deles pode ser expressa pelos lindos
olhos, e pelo sorriso meigo de Gabriela, que não foi de tecer maiores comentários,
mas tenho certeza que Irará a conquistou, assim como ela também pareceu conquistar
Irará nos poucos dias que passou por lá.
Na segunda feira, foi a festa do cruzeiro, mas como eu não estava presente,
esta é uma história a ser contada por uma outra pessoa...
Roberto Martins.
Caros conterrâneos,
Segue o Poema de Vânia.
Poema pra Irará
(Dedicado a Roberto de Irará)
Milhões de Cheiros do Outro lado da janela
e calor entrando na gente e tirando nossa água
uma estrada grande e reta
a caminho de Irará
(que já está dentro dos olhos e do sorriso de Roberto)
Os pés pesados de asfalto
Pisando bestas no paralelepípedo
E as grandes cabeças tão concretas da cidade
(cada cabeça dessa enche uma rua inteira de Irará!)
Mirando os olhos para as caras tranquilas.
Caras de paralelepípedo,
De árvore,
De banquinho de praça
Caras de cidade sem mar
Caras de Irará
E no fundo desses cabeções
A vontade de levar um tantinho de Irará no bolso
Pra quando der medo dos prédios,
Dos carros
(e também de outras cabeças)
Se refugiar lá
E só sair quando o medo passar.
Vânia Medeiro



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