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Mãe Melânia e o Estandarte

  • Foto do escritor: Karla Carneiro
    Karla Carneiro
  • 30 de out. de 2025
  • 2 min de leitura

Atualizado: 4 de jan.

Eu nunca conheci Mãe Melânia. Quando ela faleceu, eu ainda era criança demais para entender o que significava carregar um estandarte, ou mesmo compreender o sentido da Lavagem. Muito menos o que era ser símbolo de uma cidade inteira. Ainda assim, toda vez que alguém fala dela, é como se o tempo se abrisse um pouco.


Nem todo símbolo se explica; alguns apenas se sentem. E quem já viu o estandarte da Lavagem de Irará cruzar a Praça da Purificação sabe: há algo de sagrado naquele pano bordado de história. Antes de Maria Helena, sua sobrinha, foi Mãe Melânia quem o ergueu por décadas, com firmeza, fé e um sorriso que parecia compreender o peso do que carregava.


Melânia dos Reis nasceu em 1920. Aos 13 anos, herdou de Sinhá Inácia o estandarte da Lavagem de Nossa Senhora da Purificação dos Campos, símbolo que hoje representa uma das maiores tradições do município. A menina cresceu, tornou-se mulher, parteira, conselheira, ministra da Eucaristia e referência para o povo de Irará.


Foto: Maria Helena/Arquivo pessoal
Foto: Maria Helena/Arquivo pessoal

“Melânia porta-bandeira / Com mais de cem companheiras / Lá vem puxando o cordão / Com estandarte na mão...”, escreveu Tom Zé em canção.


Kitute de Licinho também eternizou sua força nos versos do cordel: “Nossa Porta Estandarte / Mulher de garra e guerra / É quem comanda a festança / Que cedo não se encerra / Não tem Canô, nem Bethânia / Quem manda é Mãe Melânia / Na Lavagem desta terra.”


As palavras traduzem o que muitos ainda sentem. Mãe Melânia não foi apenas uma personagem da Lavagem. Parteira das mais conhecidas da cidade, “pegou” mais de duzentas crianças, como gostava de lembrar. Muitas dessas pessoas passaram a chamá-la de “mãe” — e não por força de expressão. Também foi ministra da Igreja Católica e integrante dos grupos do Sagrado Coração de Jesus e de Maria.


“De perfil trabalhador”, escreveu o jornalista Roberto Martins, “viajou de pau-de-arara, passou meses em Salvador tomando conta de crianças, para ajudar no sustento da família. Faleceu em 2008, mas antes disso, escolheu Maria Helena Marques — sua sobrinha — como sucessora.


Ilustração: João Martins
Ilustração: João Martins

O estandarte que ela carregou por tantos anos repousa hoje no Centro de Memória de Irará, consagrado como parte da história que ajudou a erguer. Mesmo sem ter vivido o seu tempo, é impossível não sentir sua presença quando a Lavagem começa. Afinal, o cortejo parte às 16h da sua casa, acompanhado pela Charanga de Irará.


Com informações do jornalista Roberto Martins (publicação “Mãe Melânia, a dona do estandarte”, 28 de dezembro de 2024), do cordel de Kitute de Licinho e do acervo histórico do site da Prefeitura de Irará.

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