O peso que se herda em fé
- Karla Carneiro
- 31 de out. de 2025
- 2 min de leitura
Atualizado: 4 de jan.
Maria Helena ajeita o estandarte como quem segura uma herança. Não é apenas um símbolo da Lavagem de Irará; é o fio que a liga a uma história de fé, luta e ancestralidade. Aquele mesmo estandarte já foi conduzido por Mãe Melânica, sua tia, mulher negra, parteira e liderança religiosa respeitada por toda a cidade.

Foto: Maria Helena/Arquivo pessoal
Durante décadas, Melânica dos Reis foi o rosto da Lavagem da Purificação. Segunda porta-bandeira da festa, herdou o estandarte de Sinhá Inácia e o levou com devoção até o fim da vida. Morreu em 2008, mas deixou muito mais que lembranças: deixou um modo generoso de enxergar o outro, especialmente os que pouco são vistos.

Foto: Maria Helena/Arquivo pessoal
“Minha tia-avó faleceu, mas minhas outras tias ficaram cuidando. A família Santos continuou, deu continuidade com essa lavagem”, conta Maria Helena, que hoje ocupa o lugar que um dia foi de Mãe Melânica. Desde criança, ela segue os passos da tia-avó. “Eu e minha irmã saímos na Lavagem, mas ela parou. Eu continuei.”
Na casa dos Santos, o mês de janeiro tem outro ritmo. A preparação da festa mistura lembranças e promessas. Cada pano lavado, cada flor colocada, cada oração dita em silêncio parece carregar um pouco da voz de Mãe Melânia, que ensinou que tradição não é o que se repete, mas o que se renova.
Hoje, Maria Helena segue firme. Porta o estandarte com o mesmo cuidado de quem carrega a própria história. E quando a Lavagem acontece, não é apenas a escadaria que se purifica, é a memória de uma mulher e de uma família inteira que se mantém viva, ano após ano, lavando o tempo com fé e gratidão



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